Quem é o agressor no Battle Scenes?

Como já comentei em um dos primeiros posts do Turno Zero, pouco antes do Battle Scenes ser descontinuado pela Copag, eu tinha um artigo pendente de publicação que entraria no ar a qualquer momento no site oficial do jogo.

Com o fim do jogo, o artigo acabou ficando num limbo e ainda não tinha visto a luz do dia.

Até agora.

 

Não modifiquei nada no texto desde então, até porque me afastei do jogo e decidi jogar outras coisas (olá Legend of the Five Rings <3) e não joguei muitas partidas após o encerramento por parte da Copag.

O conceito de “quem é o agressor” é algo que se aplica a muitos jogos, desde o Magic: The Gathering que foi aonde surgiu o termo, até no novíssimo Keyforge. Então, talvez o timing de publicação deste artigo não seja lá tão ruim assim, já que estas ideias podem ser aplicadas em outros jogos, apenas os exemplos usam cartas de Battle Scenes.

Depois dessa introdução melancólica, fiquem com o texto original, espero que gostem. 🙂


 

Olá pessoal! Como estão?

Hoje vou falar sobre um tema que já é bem corriqueiro em outros card games – você já se perguntou, quem é o agressor na partida?

Este é um artigo que fala da sua postura

E quando digo postura, não estou falando da sua coluna ou da forma como você se senta durante a partida (se bem que isso também é importante), a postura no caso são as pequenas escolhas que você tomará no decorrer da partida.

Por exemplo: o que é mais vantajoso, comprar cartas ou causar dano? Nocautear personagens ou apenas remover alguma habilidade chave (enfraquecer)? Compensa mais colocar em cena um personagem grande ou vários personagens menores?

Descubra quem é o Agressor

Sempre que você se fizer as perguntas citadas anteriormente, a resposta provavelmente estará em outra pergunta: Quem é o agressor no momento?

Se você jogou algum cardgame na vida, provavelmente já ouviu esta discussão. Esta expressão surgiu em um artigo do Magic e foi transferida para diversos outros jogos depois disso. Para quem não conhece, o artigo que originou tudo foi este aqui.

Resumidamente, o conceito é o seguinte: Em TODA partida, um dos jogadores será o Agressor e o outro será o Controlador. Com isso, se você entender corretamente qual o seu papel durante toda a partida, você tem uma chance significantemente maior de vitória.

Se pudesse resumir as duas posturas de uma forma bem direta seria:

  • Jogar agressivamente é tentar fazer os 15 pontos antes que seu oponente os faça.
  • Jogar controlando se resume em impedir que seu oponente faça 15 pontos antes de você.

É basicamente o “jogar para ganhar” e o “jogar para não perder“. Parece sutil, mas é uma grande diferença.

Obs: Não confundam a postura Controlador com o arquétipo Controle que comentei nos artigos anteriores. O arquétipo diz a respeito do deck, aqui estamos falando da postura de cada jogador durante a partida, certo?

A regra da Inevitabilidade

Thanos dizendo que é inevitável

A definição de “Inevitabilidade” (que deriva da palavra Inevitável) foi cunhada por Zvi Mowshowitz lá em 2003 no artigo Who’s the Beatdown II: Multitasking, que diz:

Um jogador tem inevitabilidade se, e somente se, à partir da posição atual do jogo ele irá ganhar um jogo longo. Um jogador tem inevitabilidade num matchup se e somente se ele tem inevitabilidade no turno 1.

Bom, vamos analisar estas frases por partes:

A primeira frase é a mais fácil de entender, basicamente tem a inevitabilidade quem tem mais chances de vencer caso a partida se estenda, então, resta ao Agressor tentar finalizar a partida o mais rápido possível para ter alguma chance, já que no longo prazo ele perde. Neste caso, o Controlador possui a Inevitabilidade.

Para explicar a segunda parte, vamos pegar os arquétipos (Aggro, Midrange e Controle) como exemplos. É, eu sei que você não aguenta mais ouvir eu falar disso, mas é importante, vamos lá!

Inevitabilidade e os arquétipos

Certo, mas e o que a Inevitabilidade tem a ver com os arquétipos?

Podemos assumir que em uma partida entre Aggro e Controle no turno 1 quem possui a Inevitalidade é o Controle, por se beneficiar mais de uma partida demorada; O Aggro será o Agressor (Beatdown) nesta partida.

Parece óbvio né? Mas e onde entra o Midrange?

Novamente, o Midrange é o arquétipo mais flexível, ele dificilmente será mais agressivo que um Aggro, logo em uma partida entre os dois ele quase sempre terá a postura Controle neste matchup.

O mesmo ocorre quando um Midrange enfrenta um Controle, ele dificilmente conseguirá controlar mais que um deck construído para isso, logo ele será o Agressor na maior parte das vezes.

A partida entre 2 arquétipos iguais já requer uma análise um pouco mais apurada, algumas variáveis precisam ser analisados para entender quem terá a inevitabilidade no turno 1:

  • Mão inicial de cada jogador: Uma mão com muitas travas e cartas de respostas geralmente é uma mão Controle, enquanto que uma mão com muita geração de recursos e personagens pequenos frequentemente será uma mão Agressiva.
  • Quem jogará primeiro: Infelizmente, hoje quem começa tem uma vantagem BEM grande, então o primeiro jogador sempre terá um pouco mais de oportunidades de colocar pressão na partida.
  • Como cada abertura irá se desenrolar: Mesmo que seu deck seja Aggro, não significa que em todo jogo você conseguirá ter uma abertura espetacular.

Tempestade X-men

Invertendo os papéis

Parece bem óbvio qual o papel de cada um em uma partida entre um deck Aggro e um Controle, mas não se engane, os papeis podem se inverter. Duvida?

Imagine um deck de Magia Controle focado em “No Lugar Errado + Superstição Induzida” jogando contra um Tentáculo Aggro.

Você tem apenas um Dormamu para usar a superstição e recolocar o “No Lugar Errado” em cena caso ele saia e uma Cassandra Nova prendendo alguém. Do outro lado, uma horda de ninjas sedentos para usar suas facções mortais e seus sincronismos para fechar a partida em um ataque assim que puderem começar a usar ações.

Carta de Battle Scenes: Superstição InduzidaPor mais que você tenha conseguido encaixar o Lock (com Superstição Induzida e No Lugar Errado) e esteja com o total controle da partida, você tem que agora se preocupar em fazer os 15 pontos, pois seria uma pena se seu oponente conseguisse colocar seu Dormmamu numa Prisão 42 e ele não antecipasse mais, não é mesmo?

Nesse momento, você deve aos poucos começar a jogar de forma mais agressiva, focando em desenvolver sua mesa/mão/recursos, para tentar fechar o jogo antes que ele compre uma resposta para o seu controle.

O papel de Controle vai para o Tentáculo, que precisa jogar de forma responsiva à sua cena, ganhando tempo, de forma que ele consiga reimprimir seu ritmo de jogo assim que ele comprar a prisão 42 ou uma trava equivalente.

Por mais que o jogo estivesse “controlado”, a Inevitabilidade (lembra dela?) passaria a estar com o Tentáculo, que conseguiria reverter a situação apenas comprando a trava certa e prendendo o Dormamu. Então, no longo prazo, o Tentáculo vence a partida. Neste momento o deck de Magia se torna o Agressor e precisa acelerar o ritmo para fechar o jogo ou então, se preparar para um eventual retorno do oponente.

Identificando sua postura durante a partida

Como exemplificado anteriormente, a informação de quem é o agressor não é uma informação imutável que perdura a partida inteira, isto varia constantemente e é exatamente neste ponto que separamos os jogadores bons dos ruins, pois convenhamos, a primeira parte é bem fácil de identificar, não é mesmo?

Para comparação, temos algumas outras variáveis que devem ser consideradas:

  • Quantos personagens estão em cena de cada lado da mesa.
  • Quantas cartas no deck/mão/recursos cada jogador possui.
  • Cartas que já tenham sido usadas pelos dois jogadores.
  • Quantos pontos cada jogador já fez
  • Quantas cartas ofensivas e defensivas você tem em cena ou na mão.

Todas estas variáveis são dados que vão lhe ajudar a identificar sua postura na partida. Obviamente, o Battle Scenes é um jogo com informações incompletas, diferente do Xadrez, em que você sabe todas as possibilidades do seu oponente, no BS você (geralmente) não sabe as cartas que ele tem na mão e no deck, então você dificilmente poderá tomar uma decisão com 100% de certeza. Embora, algumas decisões tenham mais chances de darem certo do que outras.

Tire proveito da sua postura

Certo, vamos imaginar que você fez o dever de casa e no meio da partida conseguiu identificar corretamente a postura a ser adotada, como tirar proveito disso?

Pense sempre no pior cenário possível: Sabe o exemplo que dei do deck de Magia contra Tentáculo? Bom, poucos decks de Tentáculo usam a carta Prisão 42. O que não significa que você deve assumir que o seu oponente não a esteja usando. Se você possui algum tipo de vantagem no jogo, pense sempre na melhor jogada que seu oponente possa fazer para reverter a situação, principalmente se você for o Controlador.

Forçar um jogador a assumir uma posição da qual não é adequada para que ele faça: Esta talvez seja a especialidade do arquétipo Midrange, por ser um arquétipo flexível, ele consegue variar com muita facilidade jogadas mais agressivas com controle de mesa, muitas vezes até confundindo seu oponente da postura que você adotou para si próprio. Por exemplo, fazendo jogadas com alta quantidade de valor, você obriga que até mesmo um deck Aggro tenha de se preocupar em responder sua mesa, e provavelmente ele não terá cartas para tal.

Reavaliar sua postura durante todo o jogo: Como disse Mike Flores em seu artigo original, entender errado o seu papel na maioria das vezes significa derrota. Ficar na zona de conforto somente porque você conseguiu identificar seu papel no começo do jogo não quer dizer muita coisa. Os papéis constantemente mudam, algumas vezes você será o responsável por isso, outras vezes, o seu oponente. O ponto de atenção aqui é sempre se manter atento, jogada a jogada, como deve ser sua postura na partida e não exitar se for necessária uma mudança drástica.

Saber ler as jogadas do oponente e descobrir qual é a postura que ele assumiu pra si próprio: Saber isso te ajuda a prever as próximas jogadas que ele pode fazer, se ele está jogando de forma agressiva significa que deve ter vindo com poucas opções de controle na mão, se ele está aguardando você vir para o jogo significa que ele pode ter travas, surpresas ou personagens pesados que não fazem sentido utilizar neste momento do jogo.

Não subestime seu oponente: Isso é algo bem comum em jogos competitivos, alguns jogadores se acham tão incríveis que esquecem que existe outra pessoa jogando na sua frente. Tome todas as suas decisões pensando sempre que seu adversário sabe qual o papel de cada jogador na partida e que ele jogará de acordo. Não jogue presumindo que seu oponente não sabe o que está fazendo, isso pode te induzir a erros bobos.

Imagem doutor estranho V1 Battle Scenes

Concluindo

Mesmo jogadores experientes ainda encontram dificuldades em entender seu papel na partida e em alguns casos realmente é muito difícil fazer esta identificação de forma precisa.

Assim como quase todos os conceitos teóricos, é preciso prática e muitos jogos para conseguir absorver totalmente. Não se preocupe se a princípio parecer muita informação.

Sempre durante a partida tente pensar: “Qual é o meu papel neste momento?”. Se fazer constantemente esta pergunta pode ajudar a tornar algumas decisões muito mais simples e isso contribuirá indiretamente para a sua evolução como jogador.

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