Laureate usa professores em vez de robôs, sem que os alunos saibam – 24.06.2020

Se você estiver participando de cursos de educação a distância (EAD) em qualquer um dos instituições associadas à rede educacional Laureate, aviso: avaliação de suas atividades de ensaio (texto) em uma plataforma digital – conhecida como painel – não são mais apenas professores, mas software de inteligência artificial, LTI. A informação foi confirmada por cinco fontes que falaram com o órgão público sob condição de anonimato.

Silvana *, professora, explica: “Os alunos não sabem, por isso somos orientados: não podemos informá-los e temos que responder a todos os pedidos como se nós, os professores, fossem corretores”.

Um documento interno obtido no relatório que trata do uso do corretor automático também confirma a situação: “Atenção: essas informações não devem ser compartilhadas com os alunos!”, O texto está marcado em amarelo, que faz parte do manual da LTI enviado aos professores,

O manual diz que “as notas crescem [no sistema] depois das 14:00 nos dias úteis (de segunda a sexta-feira) “

Imagem: Reprodução / Ag. Publicar

“Nosso papel aqui é corrigir as atividades, então o que fazemos agora?”, Pergunta Lorena *, outra professora da rede, que tem mais de 200.000 estudantes em 11 instituições do país, incluindo a FMU | FIAM-FAAM, Anhembi Morumbi, UNIFACS, UniRitter, FADERGS, UnP, UniFG, IBMR e FPB.

O LTI trabalha com palavras-chave, explica Jonas *, outro professor. “Ele compara com a resposta do aluno, atribuindo uma nota de acordo com a identificação que ele considera correta com essas palavras”. Segundo eles, a correção não é imediata para que o aluno não entenda o uso do robô, e a nota estará disponível nos próximos dias no sistema.

“A aluna é extremamente enganada”, diz Lorena, que se sente mal por ter que participar do que chamou de “mentira”. “A impressão que deixa é que estamos lá apenas para o inglês vê-lo. Só que eu posso usar os títulos e validar os cursos no MEC, então temos que conversar com eles [MEC] que ‘temos liberdade e autonomia sobre a disciplina’, quando não temos ”, diz o professor.

Lorena refere-se a outra queixa revelada pelo público em maio do ano passado, quando professores demitidos negaram irregularidades nos cursos a distância da Laureate, desde minutos forjados para reconhecimento de cursos no Ministério da Educação até desempenho de professores em cursos fora de sua área de treinamento.

Ele alertou o relatório para a objeção atual através do jornal Uma rede de professores altamente qualificados em combate, um espaço de articulação e mobilização política de professores de instituições privadas de ensino superior (IES).

A rede deixou ir nota pública assinado por algumas entidades, incluindo o Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP).

Alunos: “Eles nunca conversaram conosco”

Mitie Nagano, 20 anos, estudante de turismo no quinto semestre da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, diz que não é informada sobre o uso da inteligência artificial no ensino a distância para corrigir atividades de dissertação.

Mitie, uma estudante universitária presencial, tem 20% de suas atividades de graduação na EAD. Mas, de acordo com Regulamento n. 2117, assinado pelo ministro da Educação Abraham Weintraub em dezembro de 2019, as instituições de ensino superior podem aumentar de 20% para 40% a parte do currículo oferecido à distância, mesmo em cursos presenciais.

A portaria diz que os cursos devem ter critérios técnicos adequados para o ensino a distância, com um projeto pedagógico aprovado. A Portaria também estipula que os alunos devem ser “amplamente informados” sobre as mudanças no curso presencial e o conteúdo, disciplinas, metodologias e formas de avaliação devem ser determinados. A necessidade de transparência se aplica aos alunos já matriculados e aos procedimentos de seleção para matrícula em cursos.

Representante da sala de aula, Mitie relata que desde o início do curso, a universidade não explicou como as correções foram feitas: “Sabíamos que eles passaram por um filtro de professores corrigidos, pelo que disseram antes. E as informações que não vieram para mim mudariam e eles começariam a usar inteligência artificial ”, diz o aluno.

Como Mitie, dez outros estudantes confirmaram ao público que não sabiam nada sobre o uso de LTI em atividades de ensino a distância. “Infelizmente, estou surpreso agora”, disse Gisele *, que trabalha com marketing na FMU. “Acredito que é extremamente prejudicial não ter um especialista treinado para avaliar minhas produções acadêmicas”, reclamou Maurício *, que trabalha na Anhemba Morumbi.

Em 24 de abril, através do serviço online do Anhembi Morumbi – como mostrado nas figuras abaixo -, Joana *, estudante de jornalismo, perguntou como as correções estavam sendo feitas e foi informada de que os professores estavam corrigindo as atividades. “Então esse professor está corrigindo todas as atividades do ensaio da EAD?”, Perguntou ele. “Está certo”, foi a resposta do serviço.

O Laureate usa professores em vez de robôs sem que os alunos os conheçam - Reprodução / Ag. Público - reprodução / Ag. Público
Imagem: Reprodução / Ag. Público
A Laureate usa professores em vez de robôs sem que os alunos os conheçam - Reprodução / Ag. Público - reprodução / Ag. Público
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João *, outro estudante da FMU, diz que não se sente inseguro diante da situação: “Isso cria suspeitas com base no que [LTI] usa para saber se está correto ou não? Fazer mais e mais correções nem sempre derrota a maior assertividade manual “.

Erick Quirino, 20 anos, estudante de jornalismo no mesmo campus que Mitie, também acha que o uso desinformado de LTI prejudica os estudantes. “Primeiro, porque depende muito da inteligência artificial que eles usam. Se é algo que compõe a análise semântica básica, que busca por palavras-chave, o contexto da resposta é perdido. E a proposta de pergunta de redação é apenas para que cada aluno possa desenvolver sua própria resposta e argumento. Talvez o uso da inteligência artificial tentará mudar uma regra em todas as respostas e, em última instância, prejudicar os critérios de classificação. E é principalmente prejudicial porque não há transparência entre estudantes e universidades “, afirmou.

O estudante de jornalismo da Anhembi Morumbi Jéssica * estima que a tecnologia pode ser muito útil, mas não é usada dessa maneira. “Mesmo com uma pequena lacuna de erro, isso não nega o fato de o robô não ter o estudo e a experiência de um professor que dedicou sua vida a ele. Sinto-me muito ‘magoado’ porque não temos acesso a essas informações”, critica.

“Vamos treinar robôs”, diz um professor que teme demissões

Jonas acredita que, assim que o LTI funcionar sem problemas, todos os professores premiados pela EAD estarão em alerta. “Vamos demitir e substituir supervisores que não precisam de treinamento”, diz ele.

Segundo ele, atualmente a interação com os alunos é pequena, só acontece quando a nota é de 6 anos ou menos – seguindo as instruções do próprio manual do LTI.

Se você perguntar [por estudantes], está na hora [dizer]”Ainda estamos fazendo uma correção e o sistema está demorando muito para aumentar a classificação”. “O aluno não está aprendendo, não é possível dar feedback. Vamos treinar robôs”, critica Jonas.

Os professores também afirmam que problemas no uso do sistema já foram notados. “Revisei a atividade de acordo com as atividades analisadas pelo LTI. A maioria dos alunos que pontuou dez foram plagiados. E há estudantes com nota baixa, mas que tentaram escrever”, diz a professora Lorena.

“O erro que vi acontecendo no LTI é o erro de um aluno que enviou a mesma resposta em duas atividades completamente diferentes e marcou 10 e 8. Isso é loucura”, diz Jonas. “Se antes, quando corrigimos as atividades, já era difícil manter a qualidade educacional, porque havia casos de professores com mais de 7.000 alunos dando feedback, e agora sem avaliação humana é ainda mais difícil”, diz a professora Silvana.

De acordo com o MEC, as instituições de ensino superior têm autonomia didático-pedagógica para gerenciar suas atividades acadêmicas, desde que “orientadas pelas regras, regulamentos internos e estatutos que o MIC avalia para fins de credenciamento e recredenciamento”.

O Manual de Conduta Ética da Laureate contém algumas considerações, incluindo a transparência - Reprodução / Ag. Público - reprodução / Ag. Público

O Manual de Conduta Ética da Laureate contém algumas considerações, incluindo transparência

Imagem: Reprodução / Ag. Público

Os cursos na modalidade 100% EAD geralmente são mais baratos que os cursos presenciais e vendem a idéia de flexibilidade para os alunos que precisam economizar tempo para poder trabalhar. Além disso, eles oferecem um exame de admissão menos rígido.

Por exemplo, o aluno Murilo * ingressou na Laureate neste semestre e participou de um curso de informática a distância. Ele diz que, quando se candidatou ao vestibular, foi convidado a escrever um ensaio on-line. Tópico: “Considerando a leitura do texto e sua experiência, escreva um texto de até 20 linhas, respondendo à seguinte pergunta: a linguagem deve ser domada e corrigida ou deve funcionar como um espaço para a expressão criativa?”.

“Foi um processo normal, escrevi o texto e entreguei”, lembra ele. “Mas pensei que haveria um processo de ensino com o professor. Por curiosidade, fui procurar o código fonte[[[[linguagem de programação atrás da página]e percebi que foi criado para enganar. Essas eram simplesmente mensagens pré-programadas já com uma nota ”, ele critica.

Segundo Muril, o tópico da escrita é irônico porque foi corrigido por um robô. “Eu não me importei em ser automatizado, mas mentir. Ninguém aprovou nada”, diz ele.

Segundo o MEC, “em caso de insatisfação com a decisão administrativa tomada internamente pela instituição, o aluno deve buscar instâncias e recursos definidos pelo regulamento interno da instituição”.

“O mais contraditório é que, nos cursos obrigatórios de treinamento on-line da Laureate, o discurso apresentado diz que a EAD não diminuiu o papel dos professores, pois seria a base para a articulação e o envolvimento dos alunos, mas é verdade que os alunos são abandonados por um sistema robótico que não valoriza a mesma qualidade. o trabalho dos professores ”, diz o professor Silvana.

Contas de IA

Não há regulamentação especial no país para o uso de inteligência artificial. Atualmente, existem duas leis sobre inteligência artificial piso no Congresso Nacional. Um deles cria uma Política Nacional de Inteligência artificial (PL 5969/2019), e o outro estabelece os princípios de uso no Brasil (PL 05.05 / 2019), ambos autores do senador Styvenson Valentim (Pode-RN) – o relator dos projetos mencionados é o senador Rogério Carvalho (PT-SE).

Como justificativa, o senador Valentim destaca que não se trata de interromper o progresso da tecnologia, mas de garantir que esse desenvolvimento ocorra de acordo com a valorização do trabalho humano, com o objetivo de promover o bem-estar de todos.

Maurício Pimentel, especialista em tecnologia, estima que o principal problema que a inteligência artificial enfrenta atualmente em relação à educação são as questões subjetivas. “Tudo sobre subjetividade à inteligência artificial terá limitações muito rígidas – não estou dizendo intransponíveis, porque em todos esses anos da minha carreira descobri que é impossível ser uma questão de tempo”.

“Acho que a IA, como glúten, açúcar e carboidratos, deve estar em embalagens escritas. Se você ligar para um serviço de TV a cabo e conversar com um robô de inteligência artificial, deve ser avisado de que é um robô. Transmito esse problema de correção com exatamente o mesmo medo. a inteligência deve ser declarada uma prioridade “, afirmou.

Para Marina Feferbaum, coordenadora da área de metodologia de ensino e do Centro de Pesquisa e Inovação em Ensino, ambos da FGV Direito, em São Paulo, a situação revelada no relatório traz um “gigante problema ético”. “O fato de os alunos não saberem que um robô corrige notas tem mil implicações”, diz ele. “A questão é pensar sobre o papel da sala de aula: no mundo científico, a validação acontece muito por causa da troca de pares. Você a constrói e dá feedback. Agora, para fazer esse algoritmo parecer um modelo, ele não tem um padrão nesse modelo de correção? considerado válido ou inválido. É uma referência teórica de um professor envolvido nesse modelo para confirmar o que é correto? De qualquer forma, a complexidade dessa discussão é infinita. “

Questionado, o MEC afirmou que não atua como órgão de apelação em questões acadêmicas. “Se a proposta pedagógica (tarefas da instituição de ensino superior forem atribuídas pelo Artigo 12 Diretrizes legais e princípios básicos da educação nacional) prejudicará a qualidade da educação oferecida, tais deficiências serão reveladas nos procedimentos regulatórios e o Ministério da Educação adotará medidas apropriadas, como medidas cautelares para reduzir vagas, suspender novos ingressos, entre outros. “

O que diz o Laureate

Questionada, a Laureate respondeu em uma nota: “Em um mundo em constante desenvolvimento, a Laureate Brasil monitora e analisa as tendências do segmento educacional para disponibilizar à academia o mais moderno e inovador do mercado, incluindo a adoção de várias tecnologias de informação e comunicação que apóiam as atividades educacionais e melhoram ainda mais comprometida em transformar vidas promovendo conhecimento e empregabilidade, a organização reforça que faz parte da autonomia universitária de suas instituições encontrar recursos para melhorar o aprendizado de seus alunos, e o professor é uma parte essencial desse processo. (MEC), bem como de acordo com a legislação brasileira aplicável. “

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