0007 – Uma Estação de Guerra

História publicada inicialmente no manual do jogo, presente no Coreset: https://images-cdn.fantasyflightgames.com/filer_public/74/46/7446c964-613e-4c01-8902-199257c5d4af/l5c01_learntoplay_web.pdf

Kakita Asami do Clã Garça encheu quatro xícaras de chá delicadamente: uma para cada um de seus anfitriões do Clã Leão , uma para seu guarda-costas e, por fim, uma para ela mesma. Por um momento, ela desejou ser uma estudante novamente, quando sua maior preocupação era dominar as técnicas de servir chá, e não se ela era capaz de evitar uma guerra entre seu povo e o Clã Leão.

Ela segurou um suspiro triste e se sentou em uma posição ajoelhada sobre o chão de tatami A sala de reunião era pequena e modesta comparada ao padrão Garça, mas ela se lembrou que estava em um castelo no coração das terras do Leão.

“Nossos sacerdotes ouviram o lamento de nossos honoráveis ancestrais. Eles exigem que a Garça devolva as Planícies de Osari a seus donos legítimos”, alertou Ikoma Eiji, um historiador do Clã Leão e o correspondente diplomático de Asami.

A acompanhante do Ikoma, a guerreira Matsu Beiona, andava lentamente em um dos lados da sala, sua cara fechada. Por debaixo daquela máscara de auto-controle, ela fervia com fúria e frustração. Não faltava muito para fazê-la ter um acesso de raiva, mas isso não contribuiria em nada com os objetivos de Asami. Seu pai tinha ordenado que ela estabelecesse um canal diplomático mais discreto caso os ânimos esquentassem durante as negociações públicas na Capital Imperial. E se os ânimos esquentassem aqui também… bem, foi por isso que Kaezin-san foi escolhido como seu guarda-costas pessoal, seu yôjimbô.

Asami bebericou o chá e sorriu suavemente. “Talvez seu shugenja tenha se enganado ao ler os sinais. O Clã Garça é o dono legítimo das planícies.” Mesmo que os shugenjas do Leão fossem médiuns de verdade entre este mundo e seus ancestrais, “evidências” sobrenaturais não eram provas admissíveis em nenhum processo legal.

O historiador Ikoma se levantou e fez um gesto em direção ao horizonte, seus olhos cerrando-se em indignação. “Seus guerreiros ocuparam essas terras há não mais que duas estações. Antes disso, o Leão era seu protetor.”

Asami olhou para seu inabalável guardião, que vigiava a Matsu com atenção. Ela disse com prudência: “Por três curtas gerações, sim, o Leão foi o protetor destas terras. Porém nossos anciões lembram dos dias em que a Garça cuidava dos animais daqueles pastos e colhia os frutos daqueles campos, da forma que fizemos durante incontáveis séculos.”

A Garça precisava daquelas terras agora mais do que nunca. Após o tsunami, seus arrozais nas províncias costeiras foram devastados e seus sacerdotes não sabiam quando os espíritos da Terra retornariam para os campos e abençoariam suas plantações novamente. Pelos mesmos motivos, seu clã não podia custear uma guerra, especialmente depois que os conflitos se intensificaram em Toshi Ranbo .

“A Garça roubou aquelas terras do Leão!” Ikoma fechou seu leque e apontou para Asami. “Não foi através da força da lâmina e da honra que vocês prevaleceram, mas sim através de uma trapaça suja. A Garça não possui números suficientes para prevalecer e mesmo assim, de alguma maneira, ela o fez. O Leão se lembra. Nossos ancestrais não mentem.”

Asami respirou fundo. Ela sabia que esta acusação seria feita, mas mesmo assim, aquelas palavras pareciam ferroadas.

O historiador parou em frente a um pergaminho contendo uma citação de Liderança de Akodo, a obra definitiva sobre a arte da guerra feita pelo próprio Kami. “Sem honra, não há vitória. Sem medo, não há derrota”, dizia. Ele acariciou seu cavanhaque pensativo.

Asami lembrou de outra citação de Liderança e considerou propor tal sabedoria ao seu anfitrião: No campo de batalha, todas as ações são honrosas.

Mas ele continuou antes que ela pudesse começar. “No início do Império, o primeiro Hantei encarregou o próprio Lorde Akodo em pessoa para preservar estas terras em seu nome. O próprio Paraíso decretou que elas ficassem sob os cuidados da bandeira do Leão.”

Asami fechou os olhos e rezou para que a Senhora Doji fizesse suas próximas palavras carregarem o peso de sua determinação e a leveza da graça de sua ancestral. “Não podemos habitar o passado para sempre; precisamos viver o presente. Se o Paraíso tivesse realmente decretado que o Leão fosse o protetor destas terras, suas forças não teriam sido derrotadas pelas nossas.”

Um silêncio inquietante caiu sobre eles. Para além das portas abertas e do alpendre que circundava o pátio interno, flores de cerejeira rodopiavam com a brisa. As pétalas a lembrou de uma certa nevasca, das longas noites em casa com histórias, canções e sorrisos em sua doce infância. Mas o inverno já passou e a primavera também logo se vai. E o verão, a estação da guerra, aproxima-se.

Ikoma contra-atacou. “Isso não muda o fato de que o Leão é melhor equipado para garantir a proteção contínua das planícies. Suas propriedades costeiras caíram nas mãos de incursões piratas muitas vezes. Seria uma vergonha se meliantes ambulantes como estes atacassem os vilarejos de Osari. Não queremos nós a mesma coisa: proteger as terras do Imperador com a maior eficiência possível?”

Asami precisou selecionar suas próximas palavras com cautela a fim de não insinuar que a resposta fosse “não”. “Nós protegeremos estas terras muito bem”.

“Então que deixe-nos testar sua teoria!” A Matsu bradou.

“Nossa honra exige que recuperemos estas terras à força! Estamos perdendo tempo discutindo aqui. Vamos testar nossa coragem no campo de batalha! Meus ancestrais estão gritando por justiça. Os membros da Garça se dispersarão diante do nosso poderoso rugido!”

“Por favor, acalme sua companheira”, Asami disse calmamente, ignorando o surto da bushi. Por um momento, ela pensou ter visto o historiador dar um sorriso malicioso. Ikoma Eiji perguntou “Você está com medo de que Beiona-san cumpra com suas ameaças? Doji Kuwana-nsama não está a postos no fronte, protegendo o vilarejo de Shirei?”

O coração de Asami ficou apertado. Talvez ele estivesse, mas ela não tinha certeza. Ela não o via há meses e suas cartas pararam de chegar desde a morte do pai dele. Será que ela estava expondo seus afetos em público tanto assim? Será que o historiador sabia sobre eles?

Não. Impossível. Certamente Kuwanan estava a postos em algum outro lugar, servindo com prudência em alguma corte em nome de sua irmã.

A porta atrás deles deslizou e um servente entrou para entregar um pergaminho a seu mestre. “Uma carta urgente, meu senhor”.

Ikoma pegou o pergaminho e dispensou o mensageiro. A sala ficou em silêncio enquanto ele lia.

“Senhorita Asami, parece que nossa conversa acabou. Aconteceu o que eu temia: um bando de ronins desonrados massacrou as forças da Garça em Shirei Mura”.

O corpo de Kuwanan imóvel na lama, sangue e sujeira apagando o brilho de sua armadura azul-prateada. Um ronin hediondo brandindo a katana ancestral de Kuwanan zombando da técnica da família Kakita.

Ela tirou a imagem da cabeça, mas ainda podia ouvir seu coração batendo e seu rosto ruborizou. Asami ergueu seu leque instintivamente para cobrir a boca e o baixou novamente em um movimento suave, como se não estivesse tentando disfarçar sua reação.

“Que notícia terrível”, ela disse. Ikoma Eiji se sentou novamente, abriu seu conjunto de caligrafia e começou a escrever uma carta.

As forças do Clã Garça não teriam sucumbido, não para um “bando de ronins”, como o Leão afirmou. E mesmo que houvessem ronins na vanguarda, certamente o Leão os con tratou e ainda colocou alguns de seus próprios ashigaru sem a bandeira do Clã Leão para auxiliar os guerreiros.

A honra exigia que Asami acreditasse nas palavras dele, ou ao menos agisse como se acreditasse, mas a esperança em seu coração se recusava. Doji Kuwanan não podia estar morto. Se a Campeã do Clã Garça perdesse tanto o irmão quanto o pai dela na mesma estação, ela ainda conseguiria encontrar paz? Ou será que ela seria forçada a vingar sua família?

Com sua reunião diplomática encerrada, tudo o que ela podia fazer agora era torcer para que a Garça retomasse a vila a tempo. Se o Leão “vencesse” os ronins primeiro a Garça sofreria um sério abalo à sua causa. Mais uma vez o Leão estava tentando provocar a Garça e quem atacasse primeiro perderia a simpatia do Imperador.

“Kaezin-san”, ela disse se levantando por último, seu yôjimbô erguendo-se ao lado dela. “Vamos voltar para casa”.

A mão de Matsu Beiona repousou sobre o cabo de sua katana. Kaezin deu um passo a frente de Asami e ela o viu destravar sua espada discretamente, pronto para agir a qualquer momento.

Ikoma Eiji largou seu pincel e suspirou. “As negociações em Otosan Uchi ainda não terminaram e nosso lorde gostaria que você fosse nossa hóspede honorável até que tudo se resolva”.

O historiador disse uma coisa, mas Asami entendeu a mensagem por trás disso: ela, Kaezin e sua comitiva agora eram reféns. Caso tudo termine em guerra.

“Senhorita Asami, você pode adicionar algumas palavras se desejar”, ele disse apontando para o pergaminho. “A delegação do Clã Garça na capital ficará feliz em ver sua caligrafia e saber que você está segura durante o tempo que ficar conosco.” Se ela fizesse isso, Kakita Yuri certamente saberia que ela teria falhado, tanto como diplomata quanto como filha.

A última flor de cerejeira se desprendeu de seu galho e flutuou lentamente até cair ao chão.