0008 – Fogo sem fumaça

“Smokeless Fire”, por Katrina Ostrander
Tradução: André Bigler
Publicado originalmente no site oficial (10/08/2017)
Conto introdutório da decisão do Kiku Matsuri 2017

“Está pronto?”

“Sim, sensei.”

Isawa Atsuko bateu nos joelhos do jovem com um cabo de bambu, e ele enrijeceu com a dor. Nobu era uma grande promessa, mas sua sensei precisava mantê-lo no chão.

“Não, sensei,” ele se corrigiu. “Eu não estou pronto.”

“Melhor. Você não está preparado, não de verdade, para testemunhar o Vazio. Precisamos retrair sua visão, para que você possa enxergar sem ver – fortalecer sua vontade, para que você não se perca no Reino do Vazio.”

O iniciado concordou e fechou os olhos. Ele respirou profundamente, em um padrão calmo e focado, centrando a atenção neste momento. Atsuko sentou-se em uma pose meditativa ao lado do iniciado. Seus joelhos reclamaram, e a sala era tão quente, mas ela se distanciaria da dor e do desconforto em breve.

“Deixe que os sons do templo o alcancem e o ultrapassem.” Ela abriu a audição e chamou a atenção da corrente do mundo. “Ouça o tamborilar abafado de pés se levantando e desaparecendo, levantando e desaparecendo, o vento ressoando através dos pinheiros, os pássaros gorjeando nos galhos…”

Eles continuaram assim por algum tempo, e a respiração de Nobu ficou ainda mais lenta. Outros conversavam em tom baixo em outro lugar do complexo. Uma rajada de vento surgiu, e um galho quebrou. Levemente, a cachoeira atrás da construção caía no lago abaixo. O aprendiz perceberia o rio para si, agora, e permitiria que seu ego fluísse gentilmente. Atsuko permitiu-se fazer o mesmo.

Minutos se passaram, talvez horas. Ela resistia ao rio, servindo como âncora para seu passageiro, quando um nó distante a fez ficar tensa como seda torcida.

Algo está errado. Nobu-kun, saia agora.

Ela esperou que o aprendiz tivesse surgido. Satisfeita que ele estava seguro, ela procurou por aquela sensação de contenção, puxou contra ela e seguiu seu curso, fluindo através de uma corrente de espaço e tempo.

Olhos fechados, Atsuko alcançou seu pote de observação. Onde a mente mortal lutava para compreender a agitação do Vazio, o metal sagrado poderia capturar imagens flutuantes na superfície da água dentro dele. O frio do nada cascateou sobre suas mãos, como se ela segurasse um pote da neve das montanhas. Ela abriu os olhos e olhou dentro.

Os robes de pele púrpura de um cavaleiro em um cavalo.

Um chifre esculpido de prata brilhante.

Asas de ouro abertas, um rubi brilhando entre elas, se dividindo em dois.

O sol e a lua trocando de lugar no horizonte, trazendo o mundo às trevas.

Aquela escuridão encheu o pote, gemendo e ressoando, contorcendo, ficando mais sombria e se alongando em uma forma de sombras. Onde seus pés tocam o chão, sangue corria como um rio, correndo pelos rios e montanhas e planícies. A criatura seguiu o sangue, e em seu despertar a escuridão se espalhou, como uma nuvem, apagando o sol.

Leste – estava indo para o leste. Para o sol que se levantava, para o Palácio Imperial, radiante ao alvorecer.

Medo golpeou como entulho em um rio raso. Ela alcançou um apoio de mão e se retirou da correnteza. Chorou quando sua consciência foi devolvida ao corpo arqueado e ambos caíram para trás.

O pote caiu no chão.

Enquanto ela se levantava, Nobu segurava o vômito. A perturbação – ela deve ter ressoado em seu mal preparado aluno também. Para o Vazio o envolver, mesmo depois de eu mandá-lo sair…

Leves lamentos se levantaram entre eles de algum outro lugar do complexo, confirmando seus medos. Ela precisava fazer contato com Mestre Ujina e Senhora Kaede imediatamente. Eles precisavam avisar o Imperador antes que fosse tarde.


A voz rangida de Atsuko desapareceu de sua mente, mas mesmo quando o toque do Vazio deixou Kaede, o frio em seu coração não o fez.

Não deveria ser uma surpresa – a shugenja da Fênix já suspeitava há tempo que a feitiçaria estrangeira do Unicórnio era perigosa. O Imperador jamais deveria tê-la aceito no Império.

E agora, ela causava ondulações na própria realidade, ondas que teriam sido sentidas por todos aqueles com o dom de perceber o Vazio. As Fortunas deveriam ter sorrido para Atsuko, ou a Ishiken não teria chance de alcançar os apertados nós do futuro e vislumbrar a fonte das ondas.

Kaede serviu-se de um copo da infusão de chá e colocou as mãos de ambos os lados da porcelana, uma vã tentativa de espantar o calafrio.

Quando fechou os olhos, ecos da perturbação a inundaram de novo, e a tontura retornou. Ela respirou o afiado aroma do gengibre para se alicerçar e diminuir a sensação.

Ela poderia alcançar, tentar ir até o lugar e tempo de onde as ondas vinham, mas ela não tentaria a viagem na capital. Ela poderia se afogar no nada, ou pior, levar outros com ela. Como já havia feito antes. Ela não arriscaria perder mais ninguém.

Ela abriu os olhos e tomou o chá, mas as mãos ainda tremiam.

Haviam dito que ela havia herdado o dom de Ujina, que um dia ela um dia provaria ser uma Ishiken ainda mais poderosa do que ele. Mas quão bom era seu dom se era poderoso demais para ser usado?

“O universo busca equilíbrio em todas as coisas, Kaede,” seu pai havia assegurado. Receber um dom tão terrível significava que haveria uma terrível necessidade em sua vida, e que um dia ela o sucederia como Mestre do Vazio.

Era orou para estar pronta quando o dia chegasse – pois tanto a perda de seu pai quanto o peso da responsabilidade seriam postos em seus ombros.

Aqui, na capital, ela podia usar outros poderes: estudo e diplomacia. Ela representava seu pai e o resto do Conselho Elemental na mais alta corte, e aconselhava Sua Majestade Imperial em questões sobre os espíritos e os reinos. A Fênix tinha autoridade suprema em todos os reinos menos este: o do Ningen-do, o reino mortal, o reino ameaçado pela visão de Atsuko. Era província única dos conselhos de outros clãs.

Os outros clãs não aceitariam bem sua interferência em seus domínios.


Todos os assuntos Imperiais haviam sido suspensos pela duração do Festival do Crisântemo, mas o aviso de Kaede não poderia esperar. Não quando a Ishiken havia usado poderosos rituais para contatá-la através de centenas de milhas em um instante.

E não quando havia chance de que o Unicórnio usasse suas mágicas estrangeiras diante do Imperador, colocando-o em perigo e aos inocentes que ali estavam para celebrar o dia.

Kaede encontrou o Imperador e seus filhos, seus guardas Seppun e os membros de nível mais alto dos ministérios Imperiais no portão de dois andares que marcava a entrada do palácio. Cortinas kicho e presilhas de corda filtravam o brilho do calor de verão e protegiam os Hantei da observação pública enquanto permitia que observavam as cerimônias. Conforme ela entrava e fazia sua reverência, ela viu o olhar sorridente e persistente do Príncipe Coroado Sotorii, mas ela não podia se permitir essa distração agora.

Ela espionou Ishikawa, Capitão da Guarda de Honra Seppun, e manobrando para se aproximar dele, adivinhando corretamente que ele sairia para recebe-la. Trocaram a sofisticada dança de galanteios, mas ela precisava falar com ele sozinha, longe do resto da delegação real.

“Capitão, poderia se juntar a mim enquanto busco uma visão melhor da parada?” Os sons da massa aglomerada em celebração abaixo impediriam suas palavras de se transformar em fofoca na corte.

“Mas é claro,” Ishikawa respondeu, olhando rapidamente para a Campeã Rubi, Agasha Sumiko, que reverenciou e se aproximou de seus protegidos, o Imperador e seus herdeiros.

Um grito subiu vindo dos cidadãos da Cidade Proibida, e a procissão virou em um canto. Ela esperava por este dia, quando a dor do luto por Doji Satsume finalmente seria banida na alegria da celebração. Agora, o crescendo das baquetas de madeira e batidas de tambor soavam como um doentio chamado de cigarras.

Abaixo deles, nas ruas tomadas, representantes das famílias Otomo, Seppun e Miya desfilavam em suas roupas Imperiais além do portão. Flores de crisântemo caíam sobre eles em laços e eles levavam bandeiras esmeralda com o símbolo Imperial dourado.

“O que é a sombra que vejo em seus olhos?” o capitão perguntou.

Kaede respirou fundo. “Recebi notícias do Santuário do Céu Estrelado hoje.” Ishikawa reconheceria o nome da escola de shugenja do Vazio, e qualquer que fosse sua mensagem, não poderia esperar. “Trago presságios temerosos. Nossos Ishiken acreditam que o Imperador está em perigo.

“Uma escuridão ameaça o oeste distante, na altura da Espinha do Mundo. Todos nós a sentimos, mas um dos nossos conseguiu observar sua origem. Acreditamos que ela vem do Unicórnio e sua magia talismânica, a que eles chamam de “magia do nome”, meishodo.”

O capitão considerou as palavras em silêncio.

Depois dos Imperiais marchou o Leão, seus guerreiros em regalias de guerra completas, jubas brancas fluindo no vento. Estes samurai defenderam Rokugan da invasão diversas vezes, fosse das hordas das Areias Ardentes, das frotas dos Reinos de Marfim ou estrangeiros ainda mais distantes.

Mas seriam eles suficientes para proteger o Imperador contra esta ameaça sombria? Uma vez que a escuridão se formasse, haveria algo que pudesse impedi-la? Estaria o Leão, aparentemente preparado para começar uma guerra contra a Garça, pronto? A inexperiente campeã da Fênix, Shiba Tsukune, seria pressionada a buscar a paz entre estes amargos rivais. Talvez nem mesmo o Imperador conseguisse isso, agora.

Os guerreiros do Leão se viraram e reverenciaram o portão em uníssono perfeito. Se levantaram e gritaram, “Banzai!” para seu Imperador, antes de continuar a procissão para a Cidade Proibida.

As palavras dela seriam um insulto para a família Seppun e suas escolas, mas Kaede reuniu a coragem para perguntar, “Se o Unicórnio usar seus talismãs amaldiçoados hoje, e algo acontecer, os guardas do Imperador estarão preparados?”

Os olhos de Ishikawa abriam amplamente e ele imediatamente checou o portão atrás deles, assegurando a segurança da família Imperial. “Os membros da Guarda de Honra estão preparados para sacrificar tudo para assegurar a vida do Imperador, e a Guarda Secreta de shugenja jurou proteger a própria alma do Imperador.”

Ela insistiu – suas palavras cercadas de impropriedade, mas eles se conheciam há anos. Podiam ser honestos um com o outro. Se ela tentasse oferecer conselhos aos shugenja Seppun, eles a teriam dispensado em um instante. Ela respirou fundo e perguntou, “Eles podem defende-lo de forças que não compreendem?”

Ele se endireitou mais, suas mãos se fechando em punhos resolutos. “Eles são o melhor dos melhores, e nunca falharam com Sua Majestade.”

Antes que o Leão terminasse seus passos, os sons de tambor e música de outro clã flutuou na avenida. A Garça era a próxima, prometendo uma performance espetacular de dança e arte. Robes e fitas cerúleos fluíam e baixavam como o Grande Mar da Deusa do Sol, e como um cardume de peixes, espadas prateadas brilharam na cena de uma peça Kabuki. Beleza tão frágil, tão facilmente engolida pela doença do mundo.

Kaede continuou sem cessar. “As técnicas de famílias diferentes estão entre seus grandes segredos, e as tradições de seus shugenja sejam ainda mais cuidadosamente guardadas. Apenas após muitos séculos os Isawa compreenderam as forças e fraquezas dos shugenja de cada clã. Os Soshi podem levantar suas orações sem usar palavras, enquanto os Kitsu evocam a orientação e proteção de seus ancestrais. Não sabemos como o fazem precisamente, mas nós – e a Guarda Secreta – ao menos sabemos o que esperar.”

“Não seriam os talismãs dos shugenja Asahina muito semelhantes – se não idênticos – aos talismãs Iuchi?” Ishikawa balançou a cabeça levemente, procurando assistência de Kaede. “Tanto os amuletos do Unicórnio quanto os da Garça parecem dar ao usuário as bênçãos dos kami.”

Eram mesmo bênçãos dos kami – ou um pacto com algum demônio? “Disso não temos certeza. Ninguém tem.” Os talismãs dos Asahina, feitos de bambu, papéis dobrados, seda e sinos não deixavam de ser semelhantes aos omamori criados por guardiões de templos para dividir as bênçãos dos kami, apesar de as proteções dos Asahina serem muito mais poderosas. Em contraste, muitos dos talismãs Iuchi tinham a forma de monstruosidades horríveis: a forma humana corrompida com caudas cobertas de escamas, asas penosas, cabeças com chifres e pernas peludas. Eram tão grotescas quanto os oni que viviam no Jigoku.

Kaede precisava fazê-lo entender. “Eu juro, Capitão, não trazemos isso de forma leviana. Você lidera os protetores do Imperador. Por favor, entregue meus temores a ele – só significará algo se vier de você. Se o meishodo for tão perigoso quanto tememos, e seus guardas encontrarem uma ameaça tão grande ao Imperador…”

“Então você acredita que devemos proibi-lo.” Ishikawa preencheu os espaços vazios, soltando um suspiro. “A Fênix e o Leão ficarão felizes em ver esmagada o que eles acreditam ser heresia, mas o Dragão e a Garça não ficarão parados ao ver seu aliado censurado. O Caranguejo pode ficar aliviado ao ver seu velho inimigo enfraquecido, ou podem ver isso como a perda de uma possível nova defesa de sua Muralha. Sem dúvidas o Escorpião vai procurar lucrar com a situação de qualquer forma. Acima de tudo, o Unicórnio não vai olhar com bons olhos o Imperador se recusar a aceitar seus métodos de serviço.”

Sim, haveria muitas ramificações políticas, mas ameaças espirituais eram muito mais complexas – e perigosas – que meras preocupações mortais. Kaede respondeu, “Ainda assim, se eles voltaram com magia negra das Areias Ardentes, então certamente o Imperador terá a sabedoria de decidir se tais artes devem continuar a servir ao Império.” Como um canal entre a Senhora Sol e seus descendentes perdidos, o Imperador era efetivamente divino, sua sabedoria irrefutável, exceto por outros Hantei.

A procissão da Fênix veio em seguida, instantaneamente reconhecível pelo templo portátil carregado pelos guardiões da família Shiba. À volta dos guerreiros, um grupo de shugenja, sacerdotes e guardiões de templos dançavam e cantavam pela glória do espírito que carregavam. Diziam ser o kami da Colina Seppun, espírito guardião da terra abaixo da própria cidade, que vigiava a linhagem dos Hantei desde a fundação da cidade.

“Existe outro jeito,” Ishikawa começou. “Se, como você sugere, o perigo está em não conhecer, então ao invés de proibir por completo, talvez seja melhor fazer o Unicórnio submeter à Guarda Secreta os ensinamentos da natureza de seus poderes.”

“Os Iuchi seriam relutantes em revelar seus segredos,” Kaede apontou. Algo tão simples como a solução do capitão jamais funcionaria.

“O Unicórnio é um clã prático. Sua campeã pode muito bem decidir que é melhor conferenciar com o Seppun do que perder as artes de seus shugenja.”

“Veremos,” disse Kaede. Ishikawa observou a multidão.

A próxima delegação surgiu, logo atrás da Fênix como a sombra mais profunda seguindo a mais brilhante das luzes. Um grupo de acrobatas saltava e se contorcia, pulando de cima das costas uns dos outros, girando no ar antes de aterrissar graciosamente de pé. Dançarinos se uniram a eles, usando máscaras e serpenteando entre sedas como se voassem na rua. Isso, também, tinha que ser um truque de algum tipo, apesar de seu significado oculto não ser adivinhado por Kaede.

“Não será minha a voz a aconselhá-lo. O Imperador tem muitos conselheiros, e você pode ter certeza de que cada um terá sua própria opinião. Qualquer decisão não virá rápida ou facilmente.”

Seria tarde demais, então. Ela precisava encontrar uma forma de influenciar estes conselheiros, ou de proteger ela mesma a família Imperial. “Isso não pode ser deixado para depois como muitas das questões de sua corte são! Por favor, leve isso diretamente a ele, eu lhe imploro. Pela minha segurança, mas também pela do Imperador.”

Os olhos de Ishikawa estavam fixados nos dela, por tempo demais, mas nenhum dos dois conseguia olhar para outro lugar. “Muito bem, Kaede-san. Se o Imperador realmente julgar que suas preocupações têm voz, ele precisará de ajuda para reforçar suas leis. Temos os Magistrados Esmeralda, mas os Magistrados de Jade de antes…” Um som de júbilo subiu, cortando a frase.

“A Fênix irá ajudar onde for necessário, fará qualquer sacrifício,” Kaede rapidamente incluiu. O escritório do Campeão de Jade não era necessário há séculos, e o Império não precisaria dele agora.

Os Mestres Elementais eram a autoridade suprema em questões espirituais, e veriam eles mesmos a interpretação da lei. Eles assegurariam que não seria motivo para que os ministros Imperiais se dedicassem à restrição de hereges shugenja.

Finalmente, a delegação que ela mais temia apareceu, seu contingente sobre montarias terríveis, suas roupas púrpura e branco com padrões que ela nunca havia visto antes. Um fedor subia dos cavalos, de um adocicado doentio, e revirou seu estômago. O bater dos cascos contra a avenida pavimentada em pedra combinava com o bater de seu coração; seus barulhos e relinchos causando arrepios em sua espinha.

Por favor, que nada aconteça, era orou. Seu poder respondeu inabalável, brotando dentro dela. O frio vácuo do Vazio bateu em seus pés, como se ela surfasse em uma noite estrelada. A despeito do calor do dia, ela tremia sob o robe de muitas camadas.

“Kaede, você está…”

“Me esqueça,” ela conseguiu sussurrar. “Vá até o Imperador. Assegure que ele está bem.”

Enquanto os cavalos trotavam em círculos, criando um padrão como o sol inconstante, um shugenja do Unicórnio no centro do círculo levantou um talismã verde com asas, uma gema rubi brilhando na luz de Amaterasu.

Não!

O Vazio a fez cair, e uma maré de poder ameaçou consumi-la. Deixe acontecer, e você terá todo o poder de que precisa. Renda-se à vontade do mundo.

Eu não vou desistir. Mas preciso ver… Sua visão escureceu, e ela viu o Reino do Vazio. Onde antes havia a parada, agora infinitos andarilhos se aglomeravam na rua, almas de cada momento, do passado distante ao futuro longínquo, seus elementos se mesclando através da cena em quatro cores. Guerra, paz, desolação, profanação. Ela lutou para encontrar uma única teia do tempo, para ver onde estavam os shugenja do Unicórnio.

O frio do Vazio pressionava, tentando afoga-la. Ali! Ela pôde ver por um simples instante: um espírito, uma criatura sombria de fogo sem fumaça, chifruda e bestial. Ela uivava, lutando contra alguma força que a continha, tentando se libertar.

Mais e mais fundo, no nada, uma com o oceano que não tinha fim…

Lembre-se de você, veio a voz de seu pai. Não perca o caminho.

Eu sou Isawa Kaede, filha de Ujina, filha de Ninube, irmã de Tadaka, conselheira espiritual de Hantei o Trigésimo-Oitavo, desposada por Akodo Toturi, amiga de Ishikawa…

Ela emergiu da escuridão e tossiu ao retornar ao calor do sol. O Imperador… os príncip…

Um grito veio da multidão – um de alegria, não de medo.

Ela se atirou nas ameias, pernas tremendo, respiração instável. Ela orou para que ninguém tivesse visto a queda, ou sentido que ela quase havia perdido a si para o poder.

O Unicórnio terminava sua demonstração com uma reverência ao Imperador, e fizeram os cavalos trotarem para além do portão.

Muita da atenção da multidão não estava mais na parada, movendo-se para a próxima celebração ou para as incontáveis barracas de comida e vinho. O Caranguejo, que era o próximo, oferecera apenas um pequeno contingente de guerreiros para a parada dos Grandes Clãs.

O capitão retornou, preocupação nos olhos.

“Eu vi algo,” ela disse, a voz tremendo. “Um espírito, trancado no talismã. Tentava se libertar, tentava chegar ao Imperador.”

Ele cuidou dela por um longo tempo. Algo nos olhos dele dizia que ele acreditava, mas não estava convencido. “Providenciarei para que Sua Majestade seja avisada, mas é tudo que posso garantir.”

Ele se despediu e retornou ao portão.

“Que as Fortunas nos guiem a todos,” Kaede sussurrou.

Apenas o Dragão restava. O embaixador Kitsuki Yaruma e sua parca delegação marchava em silêncio.

O embaixador se virou e olhou para Kaede com um olhar claramente frio. Ela não pôde imaginar o motivo.