0009 – O Mundo, Um Palco

André Bigler·Segunda-feira, 14 de agosto de 2017
“The World, A Stage”, por D. G. Lauderoute
Tradução: André Bigler
Publicado originalmente no site oficial (16/08/2017).

Enquanto isso, na Capital Imperial…

Bayushi Shoju, Campeão do Clã do Escorpião, saltou o golpe iminente, esquivando para a direita e golpeando para a esquerda enquanto o fazia. Ele era como a água, movimento líquido, colocando a si onde os ataques do oponente não estavam. Seu oponente era fogo, velocidade e agressão, golpeando com uma barragem de ataques que teriam rapidamente sobrepujado um adversário menor.

Outro golpe; ele esquivou novamente. Desta vez, ele deu um chute, seu pé acertando o ombro do oponente. A mulher se recuperou rápido, mas não rápido o bastante. A arma de Shoju passou pela minúscula abertura na corrente de ataques de seu oponente, encontrando o estômago da mulher e fazendo-a se afastar com um grunhido. Ela imediatamente se ajoelhou e largou a arma.

Shoju havia dado um golpe mais forte do que o pretendido, e perdeu um momento se recuperando. Franzindo a testa sob a máscara, ele se virou para a bushi que havia derrotado.

“Lutou bem, Yunako-san. Se não houvesse aberto tanto durante aquele penúltimo ataque, seria eu, não você, ajoelhado no chão do dojo.”

Bayushi Yunako reverenciou. “Você me deixa honrada, Bayushi-ue.”

Shoju avaliou o peso da bokken, a espada de madeira de treinamento, na sua mão direita. A potência das poções de Shosuro que davam força e flexibilidade ao seu braço direito, deficiente desde o nascimento, começavam a desaparecer. Ele se virou para a estante de armas de treinamento, planejando terminar a batalha falsa… mas parou. Um pensamento havia lhe ocorrido na noite anterior, e agora era a hora perfeita de persegui-lo. Ele então voltou.

“Yunako-san,” ele disse, “empunhe sua katana.”

“Hai, Bayushi-ue.”

Shoju aguardou enquanto a outra Bayushi caminhava pela expansão aberta da sala de treinamento do dojo, seus pés sussurrando pela camada de areia cobrindo o chão. Abaixando a bokken, ela sacou sua katana com um sussurro de aço, cuidadosamente substituiu a bainha da wakisashi, a outra lâmina de seu daisho, e se virou para encarar seu campeão.

“Agora,” Shoju disse, “eu quero que você me mate.”

Yunako fez uma reverência. “Como quiser, Bayushi-ue.” Se endireitando, ela explodiu em movimento, golpeando Shoju com um corte que o teria decapitado se tivesse acertado.

Mas não acertou, errando pela distância de um dedo quando Shoju saltou de lado. Girando no meio do salto, ele golpeou de volta com a bokken. Mais uma vez, ele era água; mais uma vez, Yunako era fogo. Desta vez, entretanto, os golpes dela eram afiados com a lâmina e a intenção verdadeira, como Shoju havia ordenado, de matar.

Um corte perverso passou pela barriga de Shoju, quase o eviscerando. Por trás da máscara, ele sorriu e bateu com a bokken em Yunako, com força. A outra Bayushi pisou de lado e contra-atacou como um escorpião literal, com um golpe por cima que se aproximou do pescoço de Shoju. Ele girou e chutou a perna de Yunako, tirando seu equilíbrio o suficiente para deixa-lo proteger a cabeça sob o ataque. Sorrindo ironicamente, ele seguiu com um golpe superior que acertou o braço de Yunako. Tão rápido quanto o pensamento, ela mudou de direção, se movendo com o golpe para dissipar sua energia. Ao mesmo tempo, ela girou a katana em um arco amplo para acertar as costas de Shoju.

Ele riu.

Ainda água, Shoju se atirou à frente, jogando todo o peso sobre Yunako de uma forma que era terra, sólida e inevitável. Ele agora também era fogo, tão rápido quanto uma língua flamejante… ar, ciente de cada movimento de braço e mão e perna e pés, cada mudança de peso, cada tensão e relaxamento de músculos… e vazio na união de todos em um único momento perfeito, completamente pensado e inteiramente impulsivo…

Seu salto para frente e o súbito impacto contra sua oponente causou uma fração de hesitação em seu golpe… tempo suficiente para que ele batesse a bokken contra a mão da espada de Yunako, colocasse sua própria mão esquerda à frente e pegasse a katana de seu punho. Ele desviou o impulso para baixo, e então à volta e para cima de seu próprio corpo, deixando seu peso jogá-la para trás e para baixo até aterrissar sobre ela, um joelho golpeando o estômago, prendendo-a, enquanto a katana terminava o arco e descansava contra o pescoço dela.

Sangue saiu ao toque do aço na carne, tão brilhante em escarlate quanto a flor tsubaki, a camélia vermelha que florescia nos Jardins Imperiais. Shoju sorriu novamente sob a máscara, devido ao quão apropriado aquilo era.

De sua parte, Yunako apenas esperou, sua face calma, quase serena, olhos focados em algo acima e atrás do campeão. Um longo momento se passou. Finalmente, seus olhos se moveram para encontrar os de Shoju.

“Minha honra,” ela disse, “e minha vida pelo Escorpião.”

Shoju manteve o olhar travado no de Yunako. Tal contato direto de olhares era uma quebra de etiqueta da corte – mas ali não era a corte. Ele não encontrou medo nos olhos dela, nem hesitação, nem arrependimento.

Shoju acenou com a cabeça uma vez, e tencionou o braço que segurava a katana…

Então saltou e girou agachando, a lâmina de Yunako preparada contra quem quer que tivesse entrado no dojo e agora estava ali de pé, próximo.

“Minhas desculpas, Lorde Shoju,” Bayushi Kachiko disse, um sorriso brincando nos lábios. “Estou interrompendo?”

Shoju baixou a lâmina e gesticulou para que Yunako se levantasse. Revertendo a katana, ele a ofereceu de volta, pelo cabo. “Acredito que isto seja seu, Yunako-san.”

Yunako fez uma profunda reverência, reconhecendo seu campeão de clã e, agora, a Conselheira Imperial. Sangue gotejava do pescoço ferido. “Sou eu que devo me desculpar, Bayushi-ue, por minha performance fraca de hoje. Temo não ter sido oponente digna de você.”

“Pelo contrário, foi mais que digna, Yunako-san. Duelaria com você novamente. Cuide de seu ferimento, então esteja aqui ao entardecer.”

“Hai, Bayushi-ue.” Yunako aceitou a katana de Shoju, moveu-se para recuperar o resto de sua daisho, fez nova reverência e se retirou do dojo.

Kachiko virou sua imitação de sorriso para Shoju. “Pretende fazer desta mulher sua concubina?”

Shoju recuperou a bokken e a devolveu ao suporte. “E se eu o fizesse?”

“Existem opções melhores. Existe uma Shosuro que seria melhor candidata, e também uma Yogo que eu poderia sugerir… se não se importa, melhor não se apaixonar por aquela, dada a maldição de sua família.”

Shoju pegou areia do chão do dojo e secou o suor das mãos. Seu braço direito ruim torceu novamente, lembrando-o de que precisava de outra dose das poções de Shosuro. “Que necessidade tenho de concubina,” ele disse, se aproximando de Kachiko, “quando minha esposa é a mulher mais desejável de Rokugan?”

“Cuidado, Lorde Shoju… se sua esposa o ouvir dizendo tais coisas, ela pode começar a acreditar nelas.”
Shoju permitiu que seu sorriso tocasse os olhos. “Acreditar no que é verdade é apenas sensibilidade.”

“Que ironia, ouvir isso do Mestre dos Segredos e Mentiras.”

“Eu falo a verdade às vezes.”

A luz nos olhos de Kachiko se tornou mais intensa. “E elas são verdades inevitáveis que me dão prazer.”

Shoju permitiu que o momento entre eles perecesse, então recuou. “Assumo que não veio aqui apenas para me ver treinar. Permita-me um banho; então conversaremos mais. Nos encontramos no lago de carpas superior, no fim da Hora do Macaco.”

Kachiko passou um dedo sobre a palma da mão de Shoju enquanto afastava a própria mão. “Esperarei por isso, meu marido.”


Shoju observou enquanto as carpas nadavam sem pensar no lago, laranja-dourado, branco-cremoso, e ocasionalmente negras. Seus movimentos realmente eram água, um fluir incessante, lânguido. Alguns entre a Fênix acreditavam que estudar as ações das carpas poderia revelar premonições sobre o futuro.

Abaixando-se, ele tocou a água com um dedo, bloqueando o caminho de um peixe em particular. Ele pulou em seu dedo, se retraiu, e nadou para outro lado. Outro peixe mudou seu curso como resultado, e outro por causa daquele, e assim foi, até que os caminhos serpenteantes da maioria das carpas haviam sido afetados.

A Fênix pode estar certa, Shoju pensou. Mas meramente perceber o futuro não era o suficiente. Mudá-lo, moldá-lo, da mesma forma que ele havia mudado as ações das carpas… era isso que importava.

“Seu filho,” Kachiko disse por trás dele, “ficaria encantado de vê-lo brincando com os peixes.”

Shoju continuou observando as carpas. “Dairu é mais do que velho o suficiente para reconhecer o que é brincar… e o que não é.”

“Então está cuidando dos peixes? Temos servos para tais coisas.”

Conforme elas nadavam, Shoju percebeu que as carpas agora evitavam seu dedo, incorporando a presença em seu comportamento. Ele o retirou e ficou de pé. “Existe valor, às vezes,” ele disse, “em coisas simples como cuidar dos peixes… particularmente quando tal simplicidade pode ser enganadora.”

Kachiko se moveu por trás dele. “Simplicidade quase sempre é enganadora.”

Shoju concordou. Há pouca distância, um camponês jardineiro cortava flores murchas de um grupo de violetas púrpura. Mais distante, em outra direção, um par de servos carregava madeira para uma casa de chá que estava sob reparos, escondida discretamente entre um grupo de cerejeiras. Havia outros servos, Shoju sabia, em outros lugares em meio à folhagem à volta deles, engajados em todos os variados trabalhos necessários para manter os jardins como um lugar de beleza moldada. Pessoas simples, fazendo coisas simples.

E tudo isso era uma mentira.

Eles eram servos, sim, mas também eram agentes do Escorpião. Através de sua presença e movimentos, eles asseguravam que ninguém se aproximaria dele e de Kachiko o suficiente para ouvir o que diziam – não sem que eles soubessem, pelo menos. O jardineiro viraria sua atenção para um hibisco próximo, os trabalhadores moveriam uma tora de madeira em particular, e Shoju saberia que alguém se aproximava antes mesmo que estivesse perto o suficiente para se tornar um problema. Coisas pequenas e simples feitas por pessoas aparentemente pequenas e simples, mas na verdade cheias de significado – simplicidade enganadora, tudo a serviço do Escorpião.

“Algo o atormenta, meu marido,” Kachiko disse.

“Muitas coisas me atormentam.”

“É por isso que estava pensando seriamente em matar aquela samurai no dojo?”

Shoju olhou para Kachiko, então começou a andar, seguindo um caminho se distanciando do lago de carpas. Kachiko silenciosamente começou a acompanha-lo.

“Ela precisava achar que minha intenção de mata-la era real,” ele disse, “para que eu, em troca, pudesse ver nela a reação.”

“Eu a estava testando.”

Shoju observou quando os servos-que-não-o-eram começaram a se mover pelos jardins, se reposicionando para se acomodar aos movimentos dele e de Kachiko. “Bayushi Yunako me foi sugerida como candidata à Guarda de Elite Bayushi. Tal posição exige lealdade que seja absoluta, e uma devoção ao dever que não tenha falhas. Por isso a pedi que me matasse, e ela imediatamente usou todas as perícias que conhecia, procurando fazer exatamente isso. E quando eu a derrotei, ela estava pronta para morrer nas minhas mãos, sem questionar ou sequer entender o porquê.”

“Uma mulher morta seria uma péssima comandante, não importa o quão leal ou devotada.”

“Então foi uma coisa boa,” Shoju disse, “que você tenha aparecido quando eu estava para fazê-lo.”

Kachiko sorriu. Por um tempo, eles apenas andaram por entre as árvores em flor, sendo tomados pelas cores e aromas misturados da miríade de flores. Eventualmente, eles alcançaram uma pequena ponte arqueada sobre uma pequena enseada, uma de muitas que pontuavam os jardins do Palácio Imperial. Shoju parou no topo do arco e se apoiou na grade, olhando o curso de água até onde ele desaparecia por entre um grupo de salgueiros-chorões.

Kachiko colocou a mão na grade, tocando a dele. “E ainda assim minhas palavras permanecem sem resposta,” ela disse. “Alguma coisa o atormenta… algo além de meramente escolher comandantes confiáveis para as forças militares de nosso clã.”

Shoju observou uma pétala solitária de rosa flutuando na correnteza. “Estou pensando em uma peça Kabuki que vi recentemente,” ele disse. “A atenção era para estar nos atores, claro, que interpretavam seus papéis com a perícia apropriada. Meu próprio interesse, porém, sempre voltava para os kuroko: os ajudantes do palco, todos vestidos de preto, que moviam objetos e arrumavam o cenário e o palco conforme a peça progredia. Se vestiam de preto porque eles deveriam ser invisíveis e ignorados.” Ele olhou para Kachiko. “Me ocorreu, entretanto, que os kuroko são na verdade os mais importantes atores do palco. Suas colocações de cenários e objetos determinam os movimentos dos outros atores. Mude um único elemento o mínimo que seja, e um ator pode acabar na sombra, ou tropeçar levemente, ou ficar perto demais da borda do palco. Isso muda como os atores realizam sua performance e, com isso, a própria peça.”

Kachiko observou o marido mas nada disse, e esperou que ele continuasse.

Shoju olhou de volta para a pétala flutuante. “Se o Império for a peça, e os clãs seus atores, então o nosso está no centro do palco, onde a atenção está completamente focada.” Ele voltou a olhar para Kachiko. “Mas é o lugar onde o Escorpião deveria estar? Não deveríamos ser os kuroko, vestidos de preto e amplamente ignorados, organizando e moldando os eventos do Império, enquanto todos os olhos estão fixados em outro lugar?”

“Trabalhamos muito para conseguir o poder que temos hoje,” Kachiko disse. “Anos de planejamento cuidadoso, procurando encontros chave e casamentos influentes, removendo os que ficavam no caminho – tudo isso culminando no que temos hoje. O Escorpião conquistou o centro do palco Imperial, não conquistamos?”

“Não discuto isso,” Shoju disse. “Nós realmente conquistamos o que temos hoje. Isso não significa que isso é o que deveríamos ter.”

“Acredito ouvir ecos em sua voz, marido. Ecos do daimyo das famílias Soshi e Yogo…”

“Soshi Shiori e Yogo Junzo comentaram sobre seus pensamentos a mim, sim. Ambos, de suas respectivas formas, acreditam que conseguimos poder às custas daquilo que nosso verdadeiro papel no Império deveria ser.”

“E você concorda com eles?”

Shoju olhou para a pétala de rosa, mas ela se fora, desaparecida por entre os salgueiros. “Não digo que discordo de imediato deles.” Ele sorriu para Kachiko. “Entretanto, eu não assumiria uma posição sem primeiro ouvir o que minha mais confiável conselheira diria sobre o assunto.”

“Soa como se você sugerisse que permitíssemos poder aos outros clãs, permitindo que eles tivessem ganhos na Corte Imperial. E isso nos permitiria trabalhar nas margens, de uma posição enfraquecida?” Kachiko soergueu uma sobrancelha. “É uma visão interessante sobre a realização da agenda de nosso clã.”

“Meu predecessor distante, Bayushi Ogoe, fez exatamente isso, não? O Escorpião era, então, ascendente no Império em quase todos os aspectos. Ao espalhar que seria fácil derrotar o Unicórnio quando todos os outros clãs falharam, e então perder para eles de uma forma verdadeiramente humilhante, ele fez nosso clã parecer confiante em excesso e fraco. Os outros clãs nos esqueceram e passaram a lutar entre si – condições perfeitas para que fizéssemos o que nosso clã faz de melhor.”

“A diferença,” Kachiko disse, “é que a Rokugan do tempo de Ogoe era relativamente próspera e estável. Os clãs acharam fácil ver o Escorpião como inimigo em comum.” Kachiko olhou para um grupo de carvalhos no caminho que haviam percorrido. Os olhos dela estavam distantes, pensativos, observando coisas além das árvores. “Por comparação, o Império de hoje está em turbulência.

A Garça flutua à beira da fome – uma fome que pode se espalhar, se as colheitas falharem em outras partes do Império. O Dragão luta com cada vez menos nascimentos entre seu povo, mesmo enquanto o Secto da Terra Perfeita surge entre eles, pregando heresia e sedução. O Caranguejo luta desesperadamente para manter a Muralha do Carpinteiro contra a escuridão, a Fênix percebe mais dificuldades em sua comunhão com os kami…”

“Estou ciente dos problemas que o Império enfrenta,” Shoju disse. É por causa deles, na verdade, que os clãs voltam olhos invejosos sobre nós. Pegue Doji Hotaru. Ela pode ser jovem e inexperiente em seu papel como Campeã da Garça, mas ela é filha de Doji Satsume. Ela irá buscar poder na corte para compensar a fraqueza de seu clã em outro lugar, particularmente após a morte do Campeão Esmeralda. Ela certamente encontrará aliados ávidos na Fênix e no Unicórnio.”

“A Fênix causa pouca consequência,” Kachiko disse, sorrindo levemente, “e não haverá aliança permitida entre a Garça e o Unicórnio. Além disso, a perda do Campeão Esmeralda pode ser benefício para nós. Seu irmão, Aramoro, seria um excelente candidato, acredito.”

“Talvez… mas Kakita Yoshi ainda é o Chanceler Imperial. Ele deverá ser o mais amável quando Hotaru desejar avançar a agenda do clã na corte.”

“Pode ficar tranquilo e não se preocupar com Hotaru ou, por extensão, com a Garça, meu marido.”

Shoju olhou para a água, anotando a certeza na voz de Kachiko. Após uma breve pausa para permitir a ela perceber que ele havia notado, ele continuou. “Então existe a questão do Caranguejo.

Hida Kisada começa a murmurar sombriamente sobre nós, sobre a questão da aparente falta de interesse do Imperador na ameaça crescente à Muralha. No mínimo, ele imagina porque não usamos nossa influência para convencer o Imperador de que fortalecer a Muralha é a preocupação maior do Império.”

“Não que Kisada admita abertamente tal fraqueza.”

“Eu o ofereci ajuda de nosso clã, tropas e material, mas ele exige um grau de controle sobre eles inaceitável.”

“Isso é só o orgulho idiota do Caranguejo.”

“Concordo, mas não muda o fato de que eles são outro clã começando a observar nosso poder e influência com ressentimento crescente.”

Kachiko ficou calada por um instante. Shoju sentiu que ela ponderava algo à distância no silêncio, como se decidindo se deveria falar ou não e, se o fizesse, que palavras usaria. Curioso, ele esperou, ouvindo o som suave da correnteza sob a ponte.

“Talvez,” Kachiko finalmente disse, “exista uma forma alternativa de ver esta peça.”

Shoju olhou para ela.

“Talvez,” ela continuou, “ao invés de render o poder e nos mover para as sombras como os kuroko, possamos fazer o oposto. Como sugeri consideramos fazer de Aramoro o Campeão Esmeralda, talvez devamos reunir e consolidar ainda mais poder para nosso clã.”

“Seria uma estratégia abrasadora.”

“Possivelmente. Mas novamente, não estamos no Império de Ogoe. Em tempos difíceis, Rokugan precisa de força e liderança. Dissipar nossas conquistas e permitir que elas sejam entregues a outros apenas arrisca que todos os clãs sejam fracos, quando pelo menos um deles deveria ser forte.”

“Bayushi-no-Kami disse ao primeiro Imperador que nós seríamos seus vilões,” Shoju disse, “não que reforçaríamos sua vontade.”

“Verdade. Mas muitos imperadores Hantei vieram e se foram nesse tempo. Nenhum deles apreciou o favor do Céu tão claramente quanto o primeiro. E este atual, o trigésimo-oitavo…”

Shoju levantou uma das mãos. “Suas palavras estão ficando perigosas, minha esposa, se está sugerindo que os Firmamentos Celestiais removeram seu favor deste Hantei.”

“Não presumi sugerir tal coisa,” Kachiko disse. “Apenas observo que crises e golpes se espalham pelo Império. O Imperador precisa ser especialmente forte em tais tempos. Ele precisa da força que você tem, Bayushi Shoju do Escorpião.”

Shoju moveu suas mãos para trás, a boa esquerda segurando a direita enfraquecida. “Um pensamento absurdo me ocorre,” ele disse. “Talvez seja apenas por eu estar fatigado após meus exercícios no dojo. Entretanto, alguém poderia imaginar que você tenha acabado de sugerir que eu me sente no Trono de Crisântemo.” Ele sorriu. “Como eu disse, porém, é absurdo pensar que você estaria sugerindo tal coisa sequer de longe, não é?”

Kachiko riu.

“Oh, meu marido… você realmente acredita que eu sequer imaginaria tal coisa? Que eu veria qualquer um que não um Hantei no trono de Rokugan?” Ela riu novamente. “Quando Bayushi-no-Kami disse que seria o vilão de Hantei-no-Kami, não creio que ele pretendia este grau de vilania. Como você disse, um pensamento totalmente absurdo.”

“Talvez,” Shoju disse, seu sorriso desaparecendo. “você deva então escolher suas palavras com maior cuidado, minha esposa.” Olhando em volta, ele viu o jardineiro, agora cortando grama atrás de um hibisco… os trabalhadores da casa de chá, agora movendo outro pedaço de lenha. Estes jardins, assim como a própria Corte Imperial, efetivamente pertenciam ao Escorpião. Era quase certo que ninguém os teria ouvido.

Quase.

Kachiko se desculpou com uma reverência. “Você está certo, é claro, meu marido. Procurarei não ser tão descuidada no futuro.”

Shoju concordou e começou a caminhar de novo, atravessando a ponte e indo até o conjunto de carvalhos. Kachiko caminhava ao lado dele, e eles retomaram sua discussão, falando sobre os muitos problemas que o Império enfrentava, e os desafios – e oportunidades – que eles apresentavam ao Clã do Escorpião.