Capes corta bolsas de estudo e pune regiões mais pobres, diz estudo – 07/06/2020

De acordo com um estudo realizado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Avanço da Ciência), foram cortadas mais de 8.000 bolsas permanentes oferecidas pela Capes (Coordenação de Avanço de Pessoal no Ensino Superior), uma agência afiliada ao MEC.

A pesquisa foi realizada por um grupo de trabalho criado pela instituição para avaliar a nova distribuição de bolsas de estudos no Brasil e constatou que os cortes aprofundariam as desigualdades regionais na ciência brasileira, atingindo principalmente programas de pós-graduação nas regiões mais pobres do país.

No estudo, efeitos causados ​​por quatro portarias publicadas este ano pela Capes (Nos. 18, 20, 21 e, em particular, o Regulamento 34 – que afetou cerca de 6.800 programas de pós-graduação no país e foi alvo de protestos de cientistas e gerentes de universidades. Foi feita uma comparação entre o número de bolsas de estudos em 2019 em comparação com as mudanças causadas por regulamentos, em fevereiro e março deste ano.

A pesquisa mostrou que, de acordo com as novas regras, as trocas constantes caíram 10,4%, passando de 77.629 para 69.508.

Em parte, esse impacto ainda não é sentido porque a Capes criou “empréstimos” que garantem o pagamento de uma cota a um aluno que já tenha sido aprovado para um programa de pós-graduação, mas que fechará após a graduação – ou seja, não terá como alvo um novo aluno. Sem bolsas de estudos, muitos estudantes não podem se inscrever para vagas.

“A Capes criou esse conceito de empréstimo, que na verdade é uma redução no futuro. Ou seja, é uma bolsa de estudos que um estudante tem agora, mas essa cota desaparece quando ele conclui. Em dois anos, haverá uma redução real nessas bolsas. E esses são cortes importantes.” , enfatiza Reinaldo Ramos de Carvalho, coordenador do grupo de trabalho da SBPC.

Em fevereiro, a Capes argumentou que um dos motivos da mudança seria ajuda direta aos municípios com menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). No entanto, o estudo da SBPC contradiz essa afirmação.

As maiores reduções ocorreram em municípios com baixo IDH

Quando os separamos em grupos, fica claro que o corte será heterogêneo. É o caso de programas em municípios com menor IDH. A pesquisa da SBPC separou os grupos e constatou que, em porcentagem, o maior declínio ocorreu em programas instalados em cidades com IDH muito baixo: uma redução de 22% nas doações permanentes.

Do ponto de vista regional, a seletividade também é clara: enquanto as regiões Sul, Centro-Oeste, Norte e Nordeste perderam em média 14% das doações permanentes, a região Sudeste perdeu apenas 7%.

Segundo Carvalho, as perdas afetam particularmente os programas com os conceitos 3 e 4, que perderão até 40% da concessão permanente.

Carvalho diz que não há como comparar cursos de locais fora dos grandes centros com cursos da 7ª série (no máximo) em São Paulo. “Estes são tipicamente programas com mais de 50 anos de existência. Esses programas para as séries 3 e 4 têm cerca de 20 anos. Existe uma certa míope em não querer entender que a pós-graduação beneficia a população como todos os outros”, diz ele.

Outro coordenador do grupo da SBPC, Thiago Signorini, diz que o estudo mostra claramente que houve um maior aprofundamento das desigualdades na ciência.

Falamos sobre o trabalho nas regiões através do IDH, mas quando você o vê em geral, o fator dominante [os cortes] é a nota do programa. Tem um privilégio para a região sudeste – que sempre foi o caso, não é nova. Basicamente, as Capes nunca tiveram um plano global para esse país; sempre houve preocupação com os grupos que já eram grandes
Thiago Signorini, SBPC

Cortes no norte e nordeste são “injustiça”

O pesquisador Fábio Guedes, presidente do Conselho Nacional de Fundações Públicas de Apoio à Pesquisa, lembra que as bolsas da Capes são formadas principalmente nos níveis de mestrado e doutorado. Sem eles, reparar os alunos se torna mais difícil. “Os programas de pós-graduação precisam dessas bolsas de estudos para manter seus alunos e cumprir as metas estabelecidas para sua avaliação”, diz ele.

Guedes, pesquisador da Ufala (Universidade Federal de Alagoas), diz que o corte no norte e nordeste – onde estão localizados a maioria dos programas das séries 3 e 4 – é injusto, porque as regiões têm maior escassez de mestres e médicos em seus pais.

“Estes são os que mais sofreram com o declínio devido a esses conceitos. Muitos deles foram criados recentemente e alguns são vitais nas regiões mais pobres e periféricas, mesmo com pequenos conceitos, porque desempenham um papel social importante na educação de jovens sem condições financeiras para permanecer em grandes centros ”, diz ele.

“Perda de bolsas mata ‘salário’ da pesquisa”

Entre os programas em cidades com IDH muito baixo, o estudo da SBPC aponta que o campus da UFPB (Universidade Federal da Paraíba) em Areia, região semi-árida, é o mais afetado. Apenas um doutorado em agronomia perdeu 14 bolsas permanentes.

Segundo a coordenadora e avaliadora do programa de pós-graduação da UFPB, Márcia Fonseca, logo que a Regra 34 foi publicada, a entidade entrou em contato com a agência, solicitando a publicação da metodologia utilizada para distribuição.

“Eles não nos responderam. Só abordamos a metodologia após uma solicitação do Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul”, diz ele.

Para ela, a pesquisa da SBPC mostra que a idéia de conceder mais bolsas para cursos em cidades com IDH menor falhou. “Juntamente com a nota do programa, a Capes alegou ter levado em consideração regiões e áreas do IDH consideradas prioritárias. E o documento da SBPC mostra que a metodologia não foi respeitada. A metodologia citada pela Capes não correspondeu à redução”, diz ele.

O trabalho de pesquisa de pós-graduação da UFS (Universidade Federal de Sergipe), Lucindo José Quintans Júnior, diz que a instituição perdeu 42 bolsas entre 2019 e 2020. “É claro que a pesquisa é muito mais do que bolsas, mas são necessárias bolsas de estudos. Perdê-las mata” pesquisas pagar ”, ele explica.

Quintans diz que o investimento para financiar pesquisas também diminuiu ao longo dos anos. “Os editais do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes estão estagnados. Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] ele até lançou algumas notificações, mas leva muito tempo para liberar recursos ”, diz ele.

Sem esse dinheiro, ele diz, muitas pesquisas acabaram sendo danificadas. “Como se você quisesse escrever uma história que, jornalista, só precisava do seu salário. Sobre o que você vai escrever? Você não terá acesso a fontes? Você não terá um telefone? Se você precisar fazer pesquisa de campo, fará isso sem apoio, ou seja, seu bolso?” ele.

O coordenador do programa de pós-graduação em física da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), Manoel Messias Ferreira Júnior, diz que a Capes emprestou cinco bolsas de mestrado apenas neste ano. “Tínhamos apenas uma cota de empréstimos em 2019. E no passado, havia cinco a menos entre estudos de mestrado e doutorado”, diz ele.

Ferreira Júnior acredita que a Capes evitou uma redução nas bolsas de estudos em andamento por causa das consequências negativas que causaria, mas os cortes nas cotas permanentes terão um grande impacto em seu curso. “O limite da pesquisa em andamento geralmente não é diretamente afetado. Mas a pesquisa científica em si é diretamente afetada quando outro cientista é impedido de continuar devido a pagamentos de cotas”, diz ele.

Capes nega estudar e diz que bolsas aumentaram

Em uma nota sim Viés, Capes afirma que, ao contrário do que mostra o estudo, o modelo de alocação “aumentou em 3.805 o número de bolsas para cursos de pós-graduação no país”. A agência também afirma que o número de doações de programas institucionais “aumentou de 80.981 para 84.786”.

No entanto, a nota sobre a Capes não separa quantas bolsas são permanentes e quantas estão emprestadas – ou seja, elas diminuirão quando um aluno for educado na pós-graduação.

Além disso, de acordo com a agência, o novo modelo chegou a “corrigir interrupções na distribuição de bolsas de estudos no país”, com uma redistribuição de bolsas de acordo com a nota sobre avaliação, localização e título de cada curso, avaliação e doutorado.

“No geral, 42% do curso possuía bolsa de estudos e 38% mantinham o mesmo número”, ressalta, lembrando que todos os que tiveram redução de bolsa tinham um empréstimo para não deixar o aluno sem atendimento.

Quanto às desigualdades regionais, a Capes afirma que expandiu os programas de apoio financeiro para reduzir o problema. Ele cita como exemplo o número de programas de desenvolvimento de pós-graduação com parcerias nos estados, com 1.800 bolsas, e a Amazônia Legal, com 720 bolsas, ambas lançadas este ano. Ele também criou o Programa Anti-Epidemia, com mais de 2.600 doações.

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