Invisível em hospitais, trabalhadores da limpeza relatam medo e ansiedade 24.05.2020

Preparar-se para sair de casa hoje envolve muito mais do que levar casacos e guarda-chuvas: agora máscaras, frascos de gel de álcool e protetores faciais fazem parte dos uniformes de milhares de trabalhadores no Brasil.

Os profissionais de saúde intensificaram os cuidados. Mas a categoria nos faz pensar em médicos e enfermeiros. No entanto, muitos trabalhadores sem treinamento técnico ou diploma fazem parte dessa equipe. Os funcionários dos setores de limpeza, lavanderia, despensa, cozinha e materiais também estão lutando contra o novo coronavírusEmbora estejam no mesmo perigo que os médicos, raramente são lembrados em honra.

Com uma rotina prolongada de limpeza e desinfecção e uma carga de trabalho ainda maior, os funcionários contam com ações preventivas do próprio hospital para continuar trabalhando sem preocupações. De acordo com um estudo da TM Jobs, consultoria de negócios em saúde, desde o primeiro caso de Covid-19, os hospitais brasileiros começaram a usar mais produtos de limpeza e a desinfetar constantemente o meio ambiente após o tratamento de pacientes contaminados.

O estudo também mostra que 89% dos entrevistados vacinaram todos os funcionários contra o H1N1 e apenas 11% não realizaram uma campanha de imunização. A ação é extremamente importante, disse Marcos Antônio Cyrillo, médico de doenças infecciosas e diretor clínico do Hospital Igesp, em São Paulo. “Os funcionários devem ter vacinas atualizadas e devem receber treinamento especial para tarefas que os colocam em contato com pacientes que precisam de isolamento”, explica ele.

Ele trabalha desprotegido e preocupado

O estudo da TM Jobs aponta que ainda falta equipamento de proteção individual para os chamados profissionais de suporte. Entre os EPIs exigidos pela Organização Mundial da Saúde (máscaras tipo N95 e PFF2, óculos ou protetor facial em acrílico, luvas, boné e casaco impermeável), apenas 70% do gel é álcool por unanimidade entre as 3.000 instituições que participaram do estudo,

Outro achado preocupante revelado no estudo é que 32% dos hospitais não realizam testes para detectar novos coronavírus em funcionários que apresentam sintomas da doença, embora o Ministério da Saúde tenha recomendado dar preferência a esses especialistas.

O bem-estar psicossocial também é um problema. Apenas 32% dos hospitais que responderam à pesquisa oferecem qualquer tipo de programa de apoio psicológico aos funcionários. Segundo Marcel Freijó, psiquiatra e professor da Escola Paulista de Medicina, o impacto psicológico é grave, devido ao estresse e ao medo constante. “São colegas que adoecem, pacientes em estado grave ou morrendo – até recebendo tratamento – é uma sobrecarga de suas funções. Sem mencionar os profissionais que acabam se distanciando da família, por medo de infectá-los”, explica.

Todo esse estresse pode se transformar em insônia, ansiedade e um aumento de várias doenças psiquiátricas associadas a depressão, pânico e estresse pós-traumático.
Marcelo Feijó, psiquiatra

Para ajudar a equipe do Hospital de São Paulo, Feijó lançou a iniciativa. Cerca de 40 profissionais da Unifespa (Universidade Federal de São Paulo) oferecem ajuda psicológica gratuita a qualquer funcionário remoto do hospital. “Planejamos o envolvimento de todos os profissionais, da saúde ao apoio, com diferentes níveis técnicos e educacionais. São pessoas que estão em uma situação muito tensa, em um ambiente muito hostil, que deve ser bem-vindo”.

Segue, ABA ouvi três especialistas lidando com o Covid-19 diariamente, nos setores de limpeza e suporte.

Quem são os invisíveis?

Alessandra Contel, Assistente de lavanderia em Santa Casa de Araçatuba, SP - Arquivo pessoal / Arte: Oda Moura

Alessandra Contel, assistente de lavanderia na Santa Casa de Araçatuba, SP

Pintura: Arquivo pessoal / Arte: Oda Moura

Alessandra Contel
47 anos
Assistente de lavanderia em Santa Casa de Araçatuba (SP)

Nós aprendemos sobre o vírus através da mídia e, desde então, começamos a nos preparar para a chegada de uma pandemia na aldeia. Quando eles confirmaram o primeiro caso na cidade, não havia como: o medo chegou. A roupa recolhe roupas sujas em setores, as separa, as pesa (porque as máquinas de lavar podem suportar apenas um determinado peso) e as coloca nas máquinas de lavar. Depois de limpas, as roupas são secas, passadas a ferro, dobradas, separadas e entregues aos setores. Os colecionadores na área suja correm o risco de entrar em contato direto com as peças infectadas e também com os que fornecem roupas aos setores. Estamos constantemente expostos e, portanto, minha preocupação dobrou. Eu já estou no hospital, usando uma máscara, bebendo álcool e limpando a mesa inteira onde vou trabalhar. Se vou entregar roupas ao centro de materiais, cuido da maçaneta da porta, do caderno (no qual escrevo o que estou entregando) e imediatamente depois aplico gel de álcool no antebraço, mãos e lápis. Essa prática é feita o tempo todo: se eu tomar café, banheiro, etc. Minha preocupação, no entanto, não diminui meu medo, porque eles fazem parte do coletivo. Eu vivo com medicação porque ansiedade porque, mesmo que você se proteja, pode infectar o seu próximo; assim, dia após dia, pede a Deus toda a proteção. Sei que, mesmo que eu faça minha parte, correrei o risco de ser contaminado. Mas também sei que precisamos de pacientes no hospital.

Marlinda Oliveira, 49 anos, Assistente de Serviços Gerais, Hospital Áurea Maia, Figueiredo de São Miguel, RN - Arquivo pessoal / Arte: Oda Moura

Marlinda Oliveira, 49 anos, Assistente de Serviços Gerais no Hospital Áurea Maia em Figueired de São Miguel, RN

Pintura: Arquivo pessoal / Arte: Oda Moura

Marlinda Oliveira
49 anos
Assistente de Serviço Geral no Hospital Áurea Maia de Figueiredo, em São Miguel (RN)

A rotina de trabalho permanece a mesma, mas com serviço duplo e cuidado extra. Quando ocorrem casos de suspeita de Covid-19 ou outras doenças infecciosas, devemos higienizar toda a área em que o paciente estava onde a análise está localizada. Eu e outros profissionais de limpeza realizamos uma limpeza ambiental total, que vai das camas às paredes. Eu me preparo para o trabalho, tomando o máximo cuidado e, para a limpeza, uso não apenas o equipamento fornecido pelo hospital, mas também o equipamento que investi em mim – como máscaras adicionais (para que possam ser trocadas com mais frequência) e uma face protetora – para você se sente mais protegido. Estou muito chateado. Saio de casa todos os dias para lidar com o vírus, voltando sem saber se estou infectado ou não. O que mais me machuca é que sei que no município em que moro, mesmo sendo pequeno, já existem 17 casos confirmados, e mesmo as pessoas não lidam com prevenção e atendimento coletivo. Eles podem contrair o vírus, ser assintomáticos e ir ao hospital para tratamento de qualquer outro problema de saúde. Isso nos contaminaria indiretamente. Isso é assustador.

Maria Aparecida Garcia
62 anos

Enfermeira do Hospital de Jaú (SP)

Trabalho no Centro de Materiais há 12 anos e sem dúvida me senti insegura e assustada após os primeiros casos de Covid-19 no Brasil. No meu setor, sempre tivemos uma rotina de cuidados especiais, porque os materiais estavam sempre contaminados. Estes materiais são de todos os setores e são limpos, desinfetados e esterilizados. Por isso, trabalhamos sempre em local contaminado, com EPI adequado. No entanto, neste período de pandemia, que é atípico para todos, estamos dobrando nossa preocupação. Sempre usamos óculos, luvas, jaleco, bota e luvas grossas, mas agora eles nos forneceram esse escudo (escudo facial) para evitar contaminação. A insegurança é constante, por isso trabalhamos focados para não ser contaminados e levar a contaminação para casa após o serviço. Mesmo quando não estamos no purgatório [área de limpeza e desinfecção dos materiais e roupas utilizados na assistência ao paciente] usamos máscara e uniforme o tempo todo, seguindo todos os protocolos. Além disso, evitamos sair do ambiente de trabalho. Nós saímos e vamos para casa tomando cuidado para não contrair uma infecção. Não é fácil, mas temos que estar lá, alguém tem que fazer o trabalho. Não estamos diretamente com os pacientes, mas contaminamos as coisas, por isso é assustador. Estamos constantemente pensando em quando tudo vai acabar.

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