Valorizado durante uma pandemia, o SUS ainda precisa de mais atenção

A projeção é do Instituto de Estudos de Políticas de Saúde (Ieps). O órgão foi recentemente fundado pelo economista Armínio Fraga

Nos próximos 20 a 30 anos, o Brasil terá que aumentar seus investimentos em saúde em três ou quatro pontos do PIB. A triagem está no primeiro estudo do Institute for Health Policy Studies (Ieps). O órgão foi fundado recentemente pelo economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, com o objetivo de contribuir para o aprimoramento das políticas públicas do setor de saúde no Brasil.

“Temos um sistema de saúde subfinanciado. O que se percebe é que a saúde pública não foi prioridade: quanto e como gastar não entra no debate público sobre o que faremos com o nosso dinheiro ”, diz o especialista que deu palestra no Health Summit 2021. Caminhos para o sistema de saúde.

Na próxima entrevista, Fraga fala sobre financiamento e desigualdade no SUS e aponta caminhos para melhorar o sistema de saúde brasileiro.

O Brasil gasta 9% do PIB com saúde, o que é semelhante ao gasto no Reino Unido, que tem um sistema universal e gratuito como o SUS. O problema aqui é a divisão entre recursos destinados à saúde pública e privada, certo?

Sim, é interessante e surpreendente que no Brasil a divisão seja única no mundo: 4% na saúde pública e 5% na saúde privada. Isso é surpreendente porque o gasto público cobre três quartos da população e 5% do PIB vai para um quarto da população. Esta é uma situação estranha e permite alegar que nosso sistema de saúde está subfinanciado. Defendi a ideia de uma grande revisão dos gastos do governo. Isso requer reflexão política: nossos representantes devem ir além da política de varejo e olhar para o grande mapa do crescimento sustentável e inclusivo.

A projeção do estudo realizado pelo Ieps é que entre os próximos 20 e 30 anos, será necessário aumentar o PIB em três a quatro pontos de investimento em saúde. Quais são os fatores que levam a essa projeção e como aumentar esse percentual?

Os principais fatores são o crescimento da receita e a curva demográfica. Pessoas com maior renda vão querer cuidar mais de sua saúde – seja diretamente, por meio do consumo privado, ou indiretamente, por meio do Estado. Os sistemas de saúde terão que lidar com isso. Em sistemas que não são universais, as pessoas terão que gastar mais no orçamento familiar. No sistema público, a carga tributária sobre a saúde terá que ser aumentada. No Brasil, isso é um desafio porque nossa situação fiscal é muito frágil e o que se percebe é que a saúde pública não era uma prioridade – quanto e como gastar não aparece no debate público sobre o que fazer com o nosso dinheiro.


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Durante a pandemia, os mais pobres foram os mais atingidos. Isso mostra como o modelo SUS também contém distorções importantes. Qual é o caminho para alcançar a justiça?

É preciso pensar as desigualdades plurais – como regionais e raciais – e considerá-las todas, dentro do que seria uma política pública de médio e longo prazo. O Brasil tem alguma tradição nisso. Na área de educação, o Fundeb é um excelente modelo. É um fundo que tem forma de repassar recursos para as unidades mais carentes da Federação. Isso pode fazer parte da evolução na área da saúde.

Ao se discutir o SUS, surge a velha dicotomia entre necessidade de mais recursos ou melhor governança. Precisamos de ambos, não é?

Sim, os números mostram que faltam recursos; e bom senso, observação e muitos estudos sugerem que há espaço para mais gerenciamento. Devemos atacar em ambas as frentes; ataque completo. O SUS está longe de ser perfeito, mas muitas coisas boas aconteceram e as estatísticas mostram isso. O Programa Saúde da Família é o maior do mundo e os dados mostram que reduziu a mortalidade infantil. Mas temos desafios importantes. A população sofre com filas, leva tempo. Tanto é que os planos de saúde são o sonho de grande parte da população.


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Tem também a questão da incorporação tecnológica – telemedicina, robótica … A área da saúde tem sido afetada pelo advento de novas tecnologias, e ao mesmo tempo no SUS ainda temos problemas como a falta de prontuários eletrônicos e muitas unidades em todo o Brasil nem tem acesso.

O prontuário eletrônico é muito simples, deve estar conectado a um sistema de identidade digital, que deve ser inspirado em modelos abertos, mas que proteja a privacidade das pessoas, como é o caso da Estônia e da Índia. Vejo espaço para uma verdadeira revolução nesta área. O histórico médico das pessoas deve estar completo no arquivo para que, se houver um problema, você tenha acesso a um histórico que permita uma resposta médica adequada. Além disso, esses milhões de dados podem ser usados ​​para estudos, para uso em inteligência artificial. Estou muito otimista quanto ao uso de tecnologia.

Você diz que os gastos com saúde devem ser vistos como um investimento, não apenas porque pessoas mais saudáveis ​​são mais produtivas. Como fazer isso com a política estadual?

Começa com as principais decisões orçamentárias do estado, em seus três níveis. A saúde obviamente merece um alto grau de prioridade. O que você não pode dizer é que tudo tem prioridade. Você tem que colocar na mesa e ver o que é grande. O Brasil gasta muito com previdência, salários do setor público, subsídios que não fazem sentido. E a saúde pública ficou para trás, apesar dos profissionais de campo. Hoje, a seguridade social responde por 13% do PIB, enquanto a saúde pública e educação é de apenas 4 ou 5%. Algo está errado. Quando você diz “sim” para algo, você diz “não” para outra coisa; e é preciso entender o que é. O orçamento público precisa ser elaborado de acordo com o que a sociedade decidiu que deseja, ou seja, um sistema público de saúde universal.


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